O projeto Solidariedade Literária, promovido pela Biblioteca e pelo Centro de Memória do TRT mineiro, completou dez anos com uma edição especial no Centro Socioeducativo de Ribeirão das Neves. O evento, realizado na tarde de quarta-feira (30/9) dentro da própria unidade, reuniu 37 jovens internos e realizou a doação de cerca de 300 obras literárias.
Representando o Tribunal, o desembargador Antônio Carlos Rodrigues compartilhou sua trajetória de vida como exemplo de transformação. Nascido e criado em uma comunidade, o magistrado lembrou que leu seu primeiro livro aos 16 anos: a obra Ibiquera, que narra a história de um indígena orientado pelo pajé de sua tribo a valorizar a juventude como o bem máximo da vida.
A leitura serviu de inspiração para o jovem que, antes de chegar à magistratura, trabalhou como açougueiro e ajudante de sapateiro. Ao destacar que a vida dá reviravoltas, ele deixou uma mensagem de incentivo aos adolescentes:
"Dentro do coração de vocês é que está a oportunidade deste país ser um dia decente e vocês têm que encontrar a força interior."
A mesa de abertura do evento contou com a presença de autoridades e gestores da área socioeducativa e da Justiça, incluindo Alexandre Rodrigues, diretor da escola estadual do Centro; Vinícius Virgílio, diretor da Unidade Socioeducativa; Roberta Costa, representante da Subsecretaria de Atendimento Socioeducativo (SUASE/Sejusp-MG); e Márcia Lúcia Neves Pimenta, bibliotecária do TRT-MG e coordenadora do projeto.
Durante a abertura, Márcia Lúcia explicou aos jovens que a edição do projeto vinha sendo mobilizada e planejada desde fevereiro, envolvendo uma ampla rede de colaboradores.
"Cada vida é um livro": a palestra motivacional
A psicóloga Luciana Passeado conduziu uma palestra voltada à valorização da história individual de cada adolescente. Ao relatar sua própria caminhada a partir do bairro da Vila da Penha, na periferia carioca, Luciana incentivou os jovens a terem orgulho de suas trajetórias e a buscarem um sentido para a vida, mesmo durante o período de reclusão.
A palestrante questionou os mecanismos sociais que despersonalizam os indivíduos — como formas pejorativas de tratamento ou apelidos — e enfatizou a importância de cultivar projetos e sonhos, tendo a família e os afetos como propulsores para a mudança. Ela concluiu lembrando que, embora a sociedade por vezes limite horizontes, os condicionantes externos não determinam quem a pessoa é.
Como desdobramento da doação das obras, a estagiária da Biblioteca do TRT, Alessandra de Souza Santos, apresentou a proposta de um Clube do Livro. A iniciativa prevê o retorno da equipe à unidade socioeducativa entre novembro e dezembro deste ano para debater as obras lidas.
Na apresentação, Alessandra ressaltou o valor da interpretação coletiva:
"Em sociedade, não tem como a gente ficar só com o nosso modo de pensar."
Para demonstrar a ideia na prática, foi realizado um exercício interativo no qual diferentes participantes liam a mesma frase e compartilhavam suas distintas perspectivas.
O encerramento musical ficou por conta do servidor Henrique Resende Silva, que apresentou clássicos do repertório nacional e internacional em voz e violão, interpretando "É preciso saber viver", de Roberto Carlos e Erasmo Carlos; "Tocando em Frente", de Almir Sater e Renato Teixeira; e "A Paz", versão de Roupa Nova para Heal the World, de Michael Jackson.
A voz dos adolescentes
A recepção dos internos ao projeto revelou reflexões sobre o presente e planos para o futuro. O jovem internado A.L. destacou o preconceito enfrentado pelos adolescentes do sistema socioeducativo e defendeu a necessidade de transformar sonhos em metas concretas, revelando o desejo de empreender e abrir a própria empresa no futuro.
Em uma carta entregue durante o evento, outro jovem expressou seu interesse por histórias reais e pelo aprendizado proporcionado pela leitura. Ele manifestou o desejo de encontrar uma obra que abordasse os rumos do mundo contemporâneo e caminhos para transformá-lo:
"A leitura de livros é fundamental no conhecimento e muitas vezes a gente aprende coisas que só os livros têm para dar."

