Por Antonio Benvindo
Desde o advento das redes sociais e a consequente popularização do debate virtual, a sociedade testemunha uma produção de conteúdo em massa nunca antes vista. No ecossistema digital, a máxima "quem não é visto, não é lembrado" tornou-se o mantra absoluto. Para garantir presença digital, conquistar fatias do eleitorado e, consequentemente, garantir uma vaga no poder, a classe política migrou em peso para as telas dos smartphones. O problema não é a migração em si, mas a metamorfose estética e ética que ela causou: a política virou espetáculo.
Hoje, tornou-se comum — e até esperado — encontrar figuras públicas performando dancinhas, dublagens e esquetes humorísticas na internet. A “trend” virou circo. No entanto, fantasiar a gestão pública com o manto do entretenimento barato é uma faca de dois gumes. Quando assuntos de extrema gravidade, como saúde, educação e segurança pública, são reduzidos a roteiros de humor para viralizar, o famoso "tiro" tende a sair pela culatra.
Fica o questionamento inevitável: em que momento a política virou piada e banalização? Quando foi que aceitamos a "tiktokzação" do debate público?
Em cidades como Ribeirão das Neves, assoladas por desigualdades profundas e problemas sociais crônicos, a espetacularização e a busca pelo riso frouxo não são apenas saídas infelizes; são um desrespeito à realidade da população. Peca pelo excesso, já diria o ditado.
Cresci aprendendo que a política deveria ser tratada como um assunto de alta seriedade. Afinal, as decisões tomadas nos plenários impactam diretamente a mesa, o hospital e a escola do cidadão comum. Há um limite ético perigoso que está sendo cruzado. No cenário atual, a maioria dos agentes políticos parece hipnotizada pela métrica do engajamento. Troca-se o projeto de lei pelo hype, a fiscalização rigorosa pelas curtidas, e o debate de propostas pelo voto gerado pelo carisma artificial do algoritmo.
É claro que o fenômeno não nasceu ontem. Desde a célebre campanha de Tiririca e seu slogan "Pior que tá não fica", a ironia e o deboche provaram sua eficácia nas urnas. O que antes era uma exceção folclórica, contudo, virou a regra do jogo democrático.
Não se trata de defender uma política elitista, engessada ou inacessível. A comunicação deve, sim, ser clara e próxima do povo. Mas a proximidade não exige infantilização. Precisamos, urgentemente, resgatar a sobriedade no trato da coisa pública. Enquanto a sociedade continuar aplaudindo políticos que agem como influenciadores digitais de comédia, continuaremos colhendo curtidas nas redes e amargando a falta de soluções reais nas ruas.
A verdadeira prática política fundamenta-se no debate propositivo e na escuta social. É imperativo transcender as bolhas digitais, visto que o ecossistema virtual reflete apenas uma fração da complexa realidade das ruas.

