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Marcos Antonio Silva

Afinal de contas, do que estamos falando?

O tema identidade de gênero foi um dos assuntos mais discutidos no ano que se passou. Figuras políticas em busca da adesão de seguimentos mais conservadores da sociedade civil no combate ao que chamaram de “ideologia de gênero” viram aí uma forma de ampliar seu capital político e assim conquistar votos desses seguimentos. O exemplo mais explícito é o deputado Jair Bolsonaro, que tem como sua maior façanha política, em mais de vinte anos de vida pública, o combate ao material formulado pelo Ministério da Educação no ano de 2011 intitulado "Escola Sem Homofobia". Esse material foi chamado pejorativamente pelo deputado e seus aliados de “kit gay”. Contudo, o material tratava de um tema bastante delicado em nossa sociedade, que é a violência física e simbólica sofrida por pessoas que destoam do que chamamos de heteronormatividade e basicamente orientava nossos professores a ensinar seus alunos e alunas a respeitarem as pessoas independente de sua orientação sexual e buscava combater a barbárie ainda comum em nossa sociedade de um individuo, que por não concordar com a orientação sexual do outro, se acha no direito de agredi-lo (física e simbolicamente) e até mesmo matá-lo.

Assim um grande campo de disputa política foi aberto e muitos deputados, vereadores, prefeitos e aspirantes a esses cargos de uma forma extremamente populista, se colocaram obstinadamente a buscar o seu próprio “kit gay” com o intuito de ganhar prestígio frente seu eleitorado e garantir o seu mandato por mais quatro anos. Assim teatros, mídia (TV, rádio, cinema, redes sociais), exposições artísticas e escolas passaram a sofrer constante vigilância desses grupos - o que não seria problema se, de fato, esses estivessem comprometidos com uma sociedade mais justa, com a formação cidadã, não sexista e humana de nossos jovens, com o fim da violência contra a mulher que no Brasil é um escândalo, ou com o combate ao etos machista e violento incorporado por nossos jovens desde sua infância. No entanto, todo o trabalho desse grupo foi combater o que eles chamaram de “Ideologia de Gênero” que segundo a sua leitura rasa sobre o tema afirmam que alguns grupos de intelectuais coligados com o movimento LGBT quer ensinar as nossas criancinhas que mesmo nascendo do sexo masculino eles podem escolher ser mulher, como se isso fosse possível. Tal discurso gerou na sociedade brasileira tamanha comoção que grupos importantes como pastores, padres, pais e demais pessoas que realmente se importam com o futuro de nossos jovens e crianças passaram a ser utilizadas como massa de manobra desses grupos.

Mas afinal de contas o que é gênero e por que é tão importante debatermos esse tema? Ao contrário do que dizem esses “doutos” deputados, a expressão gênero social possui um respaldo científico e nasce dentro dos estudos antropológicos como um contraponto a expressão sexo biológico, que trata das caraterísticas anatômicas que distinguem macho e fêmea entre as diferentes espécies animais. Segundo estes estudos os seres humanos ao longo do tempo e espaço atribuíram papéis sociais distintos a homens e mulheres, assim a categoria homem e mulher, diferente do sexo biológico (macho e fêmea), são construções sociais que mudam com o passar do tempo e estão ligados ao contexto cultural em que os indivíduos estão inseridos. Um exemplo que podemos pensar é que o papel da mulher dentro da sociedade inglesa é bem diferente do papel exercido pelas mulheres em um país como o Afeganistão, pois mesmo que ainda possuam a mesma biologia (características anatômicas) essas mulheres vivenciam em suas respectivas sociedades, existências radicalmente distintas – sendo que a segunda aqui em questão por costume de sua sociedade não pode frequentar a escola , não pode dirigir automóveis e para ser considerada uma mulher honesta deve usar uma burca - vestimenta preta que deixa a vista apenas os olhos de quem as veste.

A questão de gênero também se dedicou ao longo das últimas décadas a pesquisar a condição de pessoas que possuem uma identidade de gênero que não coincide com a sua biologia, ou seja, pessoas que mesmo tendo uma anatomia que lhe vincula a um sexo biológico (macho ou fêmea) se identificam, desde sua primeira infância, com os papéis sociais atribuídos ao sexo oposto – os transexuais. Cabe lembrar que a existência de indivíduos que apresentam essa condição não é produto da modernidade e nem estimulado pelos estudos sobre gênero. Há relatos de indivíduos que experimentam essa condição nos mais variados períodos da história e nas mais diversas culturas inclusive em culturas não ocidentais, como grupos de povos indígenas, chineses, indianos e árabes, sendo que cada cultura lida com esses indivíduos de formas distintas.

O meu interesse como pesquisador sobre o tema, especificamente pela violência sofrida por minorias sexuais, foi ampliado nos últimos anos, pois ao pesquisar a violência sofrida por estudantes em ambiente escolar, tive contato com a dura realidade de crianças e jovens que por não se enquadrarem em um padrão de comportamento entendido como “normal” do que é ser homem ou ser mulher eram violentados - de forma física e simbólica - cotidianamente por seus colegas. O mais grave que conseguimos constatar em nossas pesquisas preliminares é que essas violências eram negligenciadas e até mesmo estimuladas por professores, direção e família, quando esses não eram os próprios autores das agressões. A presença dessas violências no ambiente escolar me fez entender a importância de introduzir na formação dos professores, diretores e estudantes conteúdos que os ajudem a lidar com a diversidade sexual de forma humana e consciente, entendendo que independente da orientação sexual do estudante esse merece ser respeitado.

Portanto, tendo em vista o tema abordado acima podemos verificar que a importância de debater a questão de gênero nas escolas, mídia, nas igrejas e nas famílias se mostra fundamental, para a construção de uma sociedade mais justa, onde alunos e alunas, esposos e esposas, trabalhadores e trabalhadoras heterossexuais ou não possam colaborar entre si e não continuar competir de forma infantil. É interessante ressaltar que este texto está sendo escrito por um homem hétero educado na sociedade brasileira, o que acho que ficou claro acima que pra mim não significa nenhuma vantagem. Na verdade em alguma medida representou por muito tempo um grande peso, não comparado ao fardo atribuído a mulheres, pessoas homoafetivas, transexuais, etc, mas se mostra um peso, pois nós homens héteros educados em uma sociedade machista e homofóbica descobrimos muito cedo como nossa masculinidade é frágil e o custo de mantê-la se configura em um constante policiamento do que eu visto, de como eu falo, de quem sou amigo, de quem eu abraço, de quem eu devo humilhar, em que momento tenho que ser violento, a quem posso devotar o meu amor não erótico, ou seja, ser homem hétero não se limita a questão de me relacionar com parceiras do sexo oposto, mas sim de um processo de desumanização com o propósito último de manter meus privilégios frente as mulheres e os não heterossexuais .

Mas, hoje alguns homens héteros, entre esses me incluo, passaram a refletir sobre o que perdemos em nossas vidas para manter o privilégio de "ser homem, macho do saco roxo, como diria meu pai”. Provavelmente perdemos uma relação mais afetuosa com quem amamos do sexo masculino (filhos, pai, avôs, amigos, colegas de trabalho etc), pois a etiqueta masculina nos orienta a nunca abraçar, beijar e nem mesmo elogiar outros homens sobre o risco de sermos considerados gays. Perdemos por vezes também o amor da mulher amada, por que talvez seja impossível para ela continuar amando um homem que lhe entende como inferior e tenta impor essa sua superioridade frente o “sexo oposto” a qualquer custo inclusive com agressões físicas. Para manter esses medievais privilégios do machão sobre o grupo, perdemos inclusive a vida, pois são inúmeros os estudos que associam os elevados números de assassinatos no Brasil com o etos masculino, ou seja, essa ideia de não levar desaforo pra casa estimula a nós homens a resolver até mesmo os mínimos conflitos com a violência física e o resultado são assassinatos banais no trânsito, nos bares, entre vizinhos e até mesmo estimula a entrada de garotos para a criminalidade, pois muitos desses jovens ao serem questionados por que entraram na vida do crime afirmam categoricamente “ para me tornar sujeito homem”. Assim a questão de gênero nos mostra que se queremos uma sociedade realmente justa devemos começar questionando os nossos próprios privilégios e entendendo como estes fazem mal a toda a sociedade, inclusive a nós homens héteros que virtualmente desfrutamos desses supostos privilégios.

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Nova gestão e todos se perguntam qual a prioridade para os representantes que assumem a política em Ribeirão das Neves. Seria saúde, educação, pavimentação de ruas, saneamento básico? Estas que são eternas demandas das quais nossa cidade é tão carente e que entra gestão, sai gestão, insistem em perdurar.

Eu ousaria, no entanto, apontar outro desafio que esta nova gestão deveria assumir como prioritário: o desafio de se criar de fato uma “cidade”. Talvez esteja sendo radical em afirmar que não temos de fato uma cidade ,mas afirmo isso tendo em vista que uma cidade não se constitui por ter um posto de saúde, uma escola, uma estrada bem pavimentada, uma praça. Uma cidade é isso e muito mais. Uma cidade é feita sobre tudo pelas pessoas que vivem neste local e acreditam que ali é um bom lugar para ser viver a vida em sua totalidade. Onde as pessoas tenham possibilidades de trabalhar em empregos dignos, onde tenham um teatro para que os  seus jovens possam conhecer e expressar sua arte, onde tenham o cinema para levar a namorada, um parque para praticar esportes, brincar, se divertir ou para simplesmente fazer nada.

Assim, uma cidade só é uma cidade quando esta tem um povo que tem orgulho e prazer em viver e estar ali, caso contrário temos apenas a fria denominação administrativa de município, impessoal e sem vida.
Esta análise não consiste em uma simples constatação de um único e pretensioso observador, vários estudos dentre eles o mais recente, realizado pelo Instituto Horizontes no ano de 2011, aponta que o estimulo do sentimento de pertencimento dos cidadão nevenses para com o sua cidade deve ser entendido como elemento de extrema relevância para que o município de Ribeirão das Neves possa de fato alcançar níveis de desenvolvimento semelhantes ao de cidades da Região Metropolitana como Contagem, Nova Lima, Betim e Belo Horizonte. Desta forma, torna-se  necessário que primeiro os seus habitantes gostem, valorizem e se conscientizem das possibilidades do local onde moram para que as demais pessoas, que estão fora da cidade acreditem, respeitem e invistam em Ribeirão das Neves e em seus habitantes.

Mas o que constatamos em pesquisas recentes realizadas pelo Observatório de Ribeirão das Neves, é que este sentimento de pertencimento á cidade inexiste ou existe de forma muito germinal em sua população. O que se percebe muitas vezes, é que temos uma “população que está em Neves é não é de Neves”. Explico melhor; temos no município um grande contingente de pessoas que vieram habitar a cidade devido à proximidade da capital Belo Horizonte, pelo baixo custo de seus lotes, para ficar mais perto de um parente que esta cumprindo pena nos presídios da cidade ou outros motivos, mas que quando ascendem socialmente abandonam o município. No caso dos nossos jovens que tiveram acesso a universidade isso e mais grave ainda, pois assistimos a migração para outras localidades das mentes que poderiam tanto contribuir para o  desenvolvimento da cidade.

Mas a grande questão que se coloca então é a seguinte: De quem é a função de gerar na população este sentimento de pertencimento? A resposta é a mais óbvia possível. Está é uma preocupação que deve ser de todas as pessoas que aqui moram, mas de uma forma especial do poder público, em suas diferentes instâncias. Seria leviano exigir somente de nossa população, em especial os jovens, uma postura de pertencimento frente a município onde não há opções de lazer, cultura, assistência médica e ensino de qualidade, onde se tenha que passar preciosas horas de seu dia no deslocamento para capital em um ônibus lotado sem o mínimo conforto. Mas seria leviano também exigir somente de nossos representantes esta postura, todos temos que buscar realizar leituras de Ribeirão das Neves valorizando que a cidade tem de melhor, não reproduzindo facilmente estas representações pejorativas como “Ribeirão das Trevas”, e principalmente buscando meios para contribuir com as soluções dos problemas enfrentados pelas cidade.

O desafio está posto, mas como vimos gerar o sentimento de pertencimento da população de um município com o perfil de Ribeirão das Neves não e fácil , mas ao mesmo tempo possível e necessário para que possamos vislumbrar um futuro de desenvolvimento econômico, justiça social e preservação ambiental como foi citado no discurso da agora Prefeita Daniel Correia. Por fim cabe desejar aos nossos novos (alguns nem tão novos assim) representantes o que Nicolau Maquiavel , filosofo Italiano do Século XVI , apontou como essencial para um bom governo: Fortu e Virtú (sorte e virtude).

 

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