A lei não existe dentro da Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG)." O desabafo é da investigadora aposentada Jaqueline Rodrigues, de 50 anos, que relata ter se tornado alvo de retaliações institucionais após denunciar crimes de assédio sexual ocorridos há seis anos. Enquanto o acusado segue na ativa, Jaqueline foi afastada sob diagnósticos psiquiátricos que ela classifica como estratégia de silenciamento.
Condenação e Impunidade
O investigador Geraldo Modesto Brum foi condenado em duas instâncias a um ano e dois meses de reclusão, em regime aberto, por importunação sexual. No entanto, enquanto recorre ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), ele permanece exercendo suas funções na instituição.
Em contrapartida, Jaqueline Rodrigues não faz mais parte do quadro ativo. Após denunciar os episódios ocorridos em 2020 — que incluíram manobras perigosas em viatura e agressões físicas de cunho sexual em delegacias —, ela afirma ter passado a sofrer perseguição interna. O desgaste culminou em uma aposentadoria por invalidez em 2025, sob o diagnóstico de “transtorno de personalidade delirante”.
"Me aposentaram como se tudo fosse um delírio, como se os crimes que denunciei — e que geraram condenação — não tivessem acontecido", afirma a ex-policial. Atualmente, ela responde a mais de 30 procedimentos administrativos e criminais, incluindo um processo para sua expulsão definitiva (PAD).
Laudos e Histórico de Abusos
Um laudo do Centro de Referência Municipal em Saúde do Trabalhador (Cerest), emitido em março de 2026, contradiz a tese de "delírio". O documento confirma que Jaqueline sofre de depressão, ansiedade e estresse pós-traumático diretamente relacionados ao ambiente de trabalho.
A investigação interna da Corregedoria revelou que o acusado era conhecido pelo apelido de "touch screen", devido ao hábito de tocar e abraçar colegas de forma indesejada. Relatos de outras servidoras indicam que ele já havia sido alvo de queixas semelhantes em Ribeirão das Neves, mas, na ocasião, teria sido apenas transferido para Belo Horizonte sem registros formais de punição.
O "Efeito Rafaela Drummond"
O caso de Jaqueline ecoa a tragédia de Rafaela Drummond, escrivã que tirou a própria vida em 2023 após denunciar assédios e sobrecarga. Embora a "Lei Rafaela Drummond" tenha sido sancionada para proteger servidores, o Sindicato dos Servidores da Polícia Civil (Sindipol) alerta para a subnotificação. Segundo a entidade, apenas 40% dos casos são formalizados devido ao medo de retaliação.
Posicionamento das Partes
Polícia Civil: Em nota, a instituição afirmou que a Corregedoria atua com autonomia e legalidade. Informou que a aposentadoria seguiu critérios médicos e que não comenta processos administrativos em andamento.
Defesa de Geraldo Brum: O advogado Thiago Sellera confirmou que seu cliente segue em exercício, destacando que não há decisão definitiva (trânsito em julgado). A defesa nega condenações relativas ao período em que o policial atuou em Ribeirão das Neves e acredita na reversão da sentença atual no STJ.

