All for Joomla All for Webmasters

imigração japonesa

  • SERÁ QUE COMPENSA MUDAR PARA OUTRO PAÍS? — O QUE DIZEM OS ESTUDOS SOBRE A MIGRAÇÃO JAPONESA EM RIBEIRÃO DAS NEVES


    Por Marcos Antônio Silva

    Na coluna anterior, falei um pouco da pesquisa realizada pelo Observatório de Ribeirão das Neves sobre a migração japonesa no Bairro Areias, com a chegada, na década de 40, de membros da família Takahashi a essa localidade. Este artigo tem como objetivo explicar o nosso interesse pelo tema e os próprios motivos que levaram a equipe do Observatório a pesquisar essa temática.

    Desde a década passada, atuo como professor de sociologia na Escola Romualdo José da Costa, situada na região do Bairro Areias, e, já nos primeiros anos de docência nessa unidade, percebi a presença de alunos membros da família Takahashi em minhas turmas. Um fato que me chamava a atenção no comportamento desses jovens era que seus projetos de vida não passavam por uma maior escolarização, como acesso a curso técnico ou ingresso na universidade, mas sim por reproduzir uma espécie de rito de passagem vivenciado por membros de sua família, que era completar 18 anos e migrar para o Japão. Tendo em vista que, por sua condição de nissei (filhos de japoneses), sansei (netos de japoneses) e yonsei (bisnetos de japoneses), desfrutavam de facilidade para ingressar como imigrantes no Japão.
    Frente ao total desalento desses estudantes em relação ao projeto da escola, sempre me fiz as seguintes perguntas: como devo orientá-los? Será que, de fato, migrar para o Japão era um bom negócio? Caso a resposta fosse positiva, eu teria de adaptar as minhas aulas para esses estudantes, pois não faria sentido prepará-los para fazer o ENEM e/ou viver no Brasil, tendo em vista que eles possuíam, devido à sua condição de descendentes de japoneses, um atalho para uma vida melhor. Mas eu não tinha certeza se essa vantagem era real, por isso me propus a pesquisar o tema.

    Os estudos acadêmicos sobre o tema me davam pistas contrárias ao caminho fácil descrito pelos meus alunos. As respostas sempre traziam o termo decasségui para classificar os brasileiros que trabalhavam no Japão. Essa expressão japonesa pode ser traduzida como “trabalhar longe de casa” e também era sinônimo de jornadas de trabalho exaustivas, mal remuneradas, em funções insalubres que os japoneses se recusavam a fazer. Mas, mesmo assim, frente aos relatos dos estudantes e à sua convicção em migrar para a terra do sol nascente, não me senti completamente à vontade para colocar questões frente a um projeto tão sólido e promissor, mas também não me sentia à vontade para abrir mão de orientá-los a ver a escola como um plano B, pois “vai que não dá certo as coisas lá no Japão”.
    A dúvida do educador foi dirimida quando vimos a oportunidade de fazer uma pesquisa sobre esse tema ao sermos proponentes de um projeto de pesquisa em edital da Secretaria de Cultura de Ribeirão das Neves, via Lei Aldir Blanc, no qual propusemos, pelo Observatório de Ribeirão das Neves, uma pesquisa sobre migração japonesa na cidade. Nessa investigação, tive a oportunidade de entrevistar várias pessoas dessa família que migraram para o Japão e retornaram ao Brasil. Nessas entrevistas, pude colocar diretamente essa questão: o que dizer para um jovem dessa família que deseja migrar para o Japão?

    Entre as respostas, um entrevistado me surpreendeu ao me devolver a pergunta: “O que você acha de trabalho escravo?”. E, ao desenvolver sua resposta, afirmou que: “entre ser escravo no Brasil, submetendo-se a longas jornadas de trabalho mal remuneradas, ou ser escravo no Japão, submetendo-se a condições de trabalho piores que as enfrentadas no Brasil, é melhor ser escravo no Japão, porque pelo menos lá a gente ganha mais, mas bom mesmo é não ser escravo”. Nas entrevistas, acumularam-se descrições de relatos de humilhação e preconceito aos quais os japoneses submetiam os brasileiros pelo fato de serem brasileiros, tendo em vista que, mesmo sendo descendentes, eles eram entendidos pelos japoneses como uma raça inferior e, por isso, serviriam apenas para trabalhar em empregos desqualificados e submetidos a jornadas de trabalho que os levariam à exaustão.

    A questão de gênero também se destacou, pois culturalmente a sociedade japonesa desvaloriza sistematicamente as mulheres, a ponto de entender que elas trabalharem fora de casa era um privilégio que só poderia ser acessado depois que realizassem as tarefas domésticas. Essa condição atingia diretamente as brasileiras descendentes de japoneses que migravam para aquele país, pois eram obrigadas a exercer as mesmas tarefas que os homens, mas recebendo, às vezes, metade do salário. Caso se queixassem dessa condição, eram lembradas de que ali não era o seu país e que trabalhar no Japão era um privilégio que cobrava seu preço.
    Nesse sentido, a questão da produtividade, superelogiada por pessoas que comparam o Japão com o Brasil, especialmente empresários em tempos festivos como o carnaval, foi colocada em questão, tendo em vista que essa produtividade é obtida pela exploração máxima dos trabalhadores, e mais intensamente sobre os imigrantes, à custa da sua saúde física e mental.

    Outro ponto crítico nos relatos dos entrevistados era a questão da sociabilidade. O choque cultural entre essas duas culturas se mostrou algo incontornável, tendo em vista que, socializados em uma sociedade afetiva e calorosa, os brasileiros encontravam no Japão uma sociabilidade altamente disciplinada, hierárquica e austera, que era elevada à enésima potência por serem brasileiros e entendidos na hierarquia social japonesa como “naturalmente inferiores”. Nesse sentido, destaca-se a condição dos filhos de brasileiros que migraram com seus pais e sofreram esse choque. Nos relatos, é afirmado que o único ponto de contato era a escola, onde os brasileiros eram alvo de constantes casos de bullying, que definitivamente não era problematizado como aqui no Brasil, tendo como consequência a produção de quadros de depressão nessas crianças, frente às constantes violências de caráter racial infligidas a elas pelo simples fato de serem brasileiras.


    Por fim, um fato que se mostrou decisivo para o retorno da maioria dos entrevistados ao Brasil, que é o dilema de todo imigrante, foi o custo de ficar longe das pessoas que amam por tanto tempo. Eles relataram que não há dinheiro que compense a dor de estar longe de um pai, uma mãe, um filho ou outro familiar no momento em que eles mais precisam. Portanto, o custo e/ou as vantagens da migração não podem ser pesados, segundo os entrevistados, apenas pelo valor econômico.
    Respondendo objetivamente à questão colocada sobre o que diriam para os jovens que pensavam em migrar para o Japão, eles foram unânimes em dizer que esses jovens deveriam investir em uma carreira aqui no Brasil, pois aqui teriam maior chance de ter uma vida próspera, saudável e rica nas diferentes acepções dessa palavra, para além do sentido econômico, do que lá no Japão. Tendo em vista que grande parte dos jovens que optaram por migrar para o Japão, ao retornarem, voltavam sem uma profissão e, ao enfrentarem novamente as dificuldades financeiras, justamente por não possuírem uma boa qualificação, cogitavam retornar para o Japão mesmo sabendo das condições que os esperavam.


    Essas respostas me levaram a refletir inclusive sobre a visão que temos do Japão, dos Estados Unidos, de Portugal e de outros destinos escolhidos por brasileiros para “ter uma vida melhor”, é muito influenciada pelo que o dramaturgo Nelson Rodrigues chamou de “síndrome de vira-lata”. Os relatos dos entrevistados me levaram a pensar que a sociedade brasileira, mesmo com todos os seus problemas, especialmente ligados à grande concentração de renda, que gera a contraditória posição de um país rico com muita pobreza, consegue equilibrar a relação entre vida e trabalho quando comparada a outros países, especialmente o Japão, campeão em produtividade, mas a qual custo para sua população? Porque, ao contrário do ditado popular, tempo para viver com quem se ama, para se divertir e ter uma vida rica vale muito mais do que dinheiro, e isso tem muito a ver com as discussões sobre o fim da escala 6x1.

    Readmore